terça-feira, fevereiro 16, 2016

Psicodália, um lugar onde você pode ser você mesmo...



Edição 2016 de carnaval

* texto Herman G. Silvani; fotos Herman & Liza Bueno

Mais um Psicodália vem e vai – e continua! Roupas e acessórios nas mochilas, câmeras fotográficas nas mãos, e lá fomos nós mais um ano para curtir e ‘trabalhar’ alegremente no evento. Esta edição de 2016 foi muito especial para a Liza e eu, pois foi o nosso décimo Psicodália consecutivo. Ou seja, faz 10 anos que o nosso carnaval (e algumas viradas de ano) são ‘psicodálicos’. Além disso, foi a segunda edição em que tocamos com a Epopeia (sendo a primeira na chamada ‘edição especial de ano novo’ de 2012 para 2013). 10 anos de festival (desde quando ele era bem menor e acontecia em São Martinho), sendo 8 deles (de 2009 pra cá), registrando e divulgando o festival em fotos e textos. E eis aqui mais um trabalho que ‘dá trabalho mas não nos cansa’, movidos em parte por este nosso envolvimento com a ‘cena ou cultura’ (contracultura) dita independente e/ou alternativa. Dá pra se dizer que somos ‘militantes’ desta ‘causa’ que nos é muito nobre, pois acaba sendo um ‘movimento de resistência’, principalmente aos chamados ‘produtos culturais ou artísticos’ promovidos pela grande mídia e seus financiadores privados. Movimento este de cunho artístico e sociocultural (assim como, de certo modo, assim sendo, político). E cá estamos nós, mais uma vez ‘cobrindo’ e sempre ‘descobrindo’ o Psicodália. Vamos lá...

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PARTE I

Sexta, 05/02

Saímos de Xapecó, Velho Oeste catarinense, rumo ao Norte do Estado bem cedinho, numa caravana de amigos em três carros. Tempo nublado e calor, porém agradável para pegar a estrada. A viagem foi tranquila, e as 12:30h chegamos a Rio Negrinho. Direto para a pousada descarregar os apetrechos e instrumentos musicais. Depois de um breve descanso rumamos para a fazenda Evaristo, palco do Psicodália já faz alguns anos. Diferente do ano anterior, não pegamos trânsito nem fila, entramos tranquilamente no evento. Carros estacionados, cervejinha, risos, diversão e tiros, muitos ‘tiros fotográficos’. Aos poucos fomos reencontrando amigos/as e outros ‘seres’ que só encontramos no Psicodália. Muita organização, simpatia e flexibilidade nas orientações dos que trabalham no festival, entre um que outro empecilho, o que faz do Psicodália um evento de grandes ou médias proporções, bem organizado. Aos poucos a luz do dia vai dando espaço ao escuro da noite e o Palco Lunar abre seus trabalhos...
























Bixo da Seda, 21h.

A primeira banda a se apresentar no Palco Lunar foi a clássica e esperada por muitos (inclusive por mim), Bixo da Seda. Infelizmente não pude ver/ouvir as bandas que se apresentaram anteriormente no Palco do Sol, assim como tantas outras no decorrer do festival, devido a correria fotográfica, idas e vindas da pousada e pelo cansaço disso tudo. Bixo da Seda é uma banda gaúcha do início dos anos 70, remanescente de uma das bandas independentes-autorais mais ‘antigas’ do Sul, a Liverpool (de meados dos anos 60). Bixo da Seda na época fazia um rock de cunho mais progressivo, o que eu, pessoalmente esperava. Porém, fizeram praticamente um show de ‘hard rock’, sem os teclados e a sem presença do Fughetti Luz. Para quem é fã do estilo, uma boa apresentação, muito bem tocada e com canções que marcam a carreira da banda. Não cheguei a me frustrar, pois esta sensação quase não faz mais parte da minha vida, mas confesso que, apesar de tecnicamente ter sido muito bom, talvez o ‘estilo’ não tenha me empolgado muito. Mesmo assim, curti um tanto do show e fizemos (eu e Liza) os devidos registros. Pelo histórico e importância da banda no cenário do rock nacional, independente dos gostos, de fato, não poderia faltar pelo menos numa das edições do Psicodália. Um bom show que, mesmo sem o Fughetti e com a levada ‘hard’, fez jus ao festival e sua proposta – ou uma (entre tantas) das suas propostas.














Bandinha Di Da Dó, 23h.

Pausa de alguns minutos e sobe ao palco a segunda atração do Palco Lunar do Psicodália 2016, a já ‘clássica’ no evento Bandinha Di Da Dó. Como sempre, um show animado que botou o povo pra dançar, pular e sorrir – e quem disse que no Psicodália não tem carnaval? (começando pelo espírito e história da ‘festa pagã’ que é o mesmo do festival, até chegar ao samba incorporado aqui no Brasil). A carinhosamente também chamada ‘Bandinha’, muito querida por parte significativa do público do evento, apresentou a mesma energia e integração de sempre com o público, numa mistura de show de punk-rock, ‘baile’ e circo, fazendo jus ao seu ‘estilo’ musical, a Clown Music. Mais uma vez a Bandinha Di Da Dó trouxe alegria e diversão, além da música e sua arte Clown ao público.

















Replicantes, 1h.

Sai Bandinha entra Replicantes, na noite mais ‘gaúcha’ do festival, que também teve a Bicho da Seda. A ‘clássica’ banda punk gaúcha Replicantes, uma das principais do gênero punk rock e hard core do Sul e do Brasil, subiu ao palco com muita energia e a típica simplicidade punk. Replicantes foi uma das bandas nacionais que eu mais ouvi no meu tempo de ‘punk’, entre gravações em fita K7, discos de vinil, zines e manifestos, os Replicantes com seu punk hard core bem peculiar (havia um ‘Q’ de psicodelia-espacial nas suas apresentações dos anos 80), fazia parte da trilha sonora da minha adolescência. Anos depois, já tocando progressivo-psicodélico com a Epopeia, eu e Liza acabamos tocando antes dos Replicantes (com o Wander Wildner nos vocais) em um festival na cidade vizinha de Concórdia. Mas desta vez, no Psicodália, ao invés do Wildner (que fez um belíssimo show ‘solo’ na edição 2014 do evento) foi uma garota quem cantou e deu o recado como vocalista dos Replicantes, que, sem Wildner e Carlos Gerbase, teve uma mudança no seu som e apresentação no palco. No caso, são ‘outros’ Replicantes, integrados aos dois ‘originais’ (baixo e guitarra). Não dá pra negar que o Wander Wildner dava certa ‘característica’ a banda (característica da qual eu gostava muito), pelo seu jeito de cantar, seu modo de se mover e sua voz no palco. Porém, com a garota nos vocais, uma outra energia emanou, o que fez da apresentação dos Replicantes ter o principal elemento que eu considero numa banda que se proponha a fazer punk rock, a energia. Tocando alguns ‘clássicos’ da banda dos dois primeiros discos (além das mais recentes composições), a banda me fez relembrar e cantar algumas das suas instigantes e caóticas canções, as quais gosto muito ainda hoje (O futuro é vortex, Ele quer ser punk, Astronauta, entre outras). Replicantes também tem uma bela e importante história dentro do rock do Sul e do Brasil, sendo uma das bandas que fez do ‘faça você mesmo’ do punk uma cultura (contracultura) que influenciou a produção independente no Sul do país, com seus discos e vídeo clipes da Vortex, uma produtora própria chefiada pelo ex-baterista e hoje cineasta Carlos Gerbase. Enfim, outra banda que merece todo nosso respeito e atenção, dada a sua história e resistência musical dentro do rock brasileiro.





















Era só a primeira noite do festival. Cansados da viagem, saímos fazer mais algumas fotos e comer algo. O cansaço nos venceu e fomos para a pousada dormir, pois o sábado nos traria outras boas atrações, experiências e emoções...


















Sábado, 06/02

Das desvantagens de não estar acampado...

Gostaria de ter acordado mais cedo e ir até a fazenda para assistir a banda Mar de Marte, a qual já dividi o palco em um festival na nossa região no ano passado, só que com a banda Feito Elétrico, na qual toco baixo ao invés de guitarra (como é na Epopeia). Mas, até acordar, tomar banho, almoçar, ir da pousada até a fazenda, etc., se perde um bom tempo. Eis a vantagem de acampar no local do evento, o rápido acesso aos shows. Mas enfim. Antes de irmos para a fazenda, resolvemos mais uma vez (pois fizemos a visita em outro ano) dar uma passada na estação de trem, onde também fica o museu do trem de Rio Negrinho. Alguns tiros no passeio por lá e logo nos dirigimos à fazenda. Já dentro do festival, mais tiros, tragos, diálogos, risos. Cerveja para refrescar. Fomos até o Palco do Sol pegamos parte da apresentação da banda Sopro Cósmico.


















Sopro Cósmico, 17:30h.

Sopro Cósmico é um trio também já conhecido do público do Psicodália. Uma banda muito boa que faz um som instrumental com elementos progressivos, psicodélicos e nuances de jazz. Percebi que a formação (baterista e saxofonista) mudou. O tecladista é o mesmo, o que faz com que a banda continue sendo o que é. Max, o tecladista, é um ‘monstro’ (como dizem). Um dos grandes tecladistas (pianistas) da música do Sul do país. Já vi a banda em outras edições do festival e no ano passado no parque Farroupilha em Porto Alegre. Max toca muito, tendo uma habilidade rara nos teclados, que só vendo/ouvindo ao vivo pra crer. Mais uma vez uma belíssima apresentação, experimental e muito musical. Novos e bons músicos acompanham Max nessa empreitada sonora. E o Sopro Cósmico mais uma vez nos presenteia com sua musicalidade sofisticada.
















Encerrada a apresentação do Sopro Cósmico, saímos para dar um role, registrar mais momentos do festival e curtir a vibe com amigos pela fazenda, esperando um dos que foram dos shows mais intensos e musicais do festival.















Terreno Baldio, 21h.

Começam os shows do sábado no Palco Lunar com a magnífica banda Terreno Baldio. Já havia visto seu show em outra edição do Psicodália, alguns anos atrás, só que havia sido na parte da tarde. Desta vez, sendo à noite, o clima foi outro. E que show! Como bem esperava, um dos mais intensos do festival. Demais! Um conjunto fabuloso de músicos e suas canções e instrumental impecáveis e inspiradores. O maestro e guitarrista Mozart Melo sem isolar o conjunto e sempre respeitando a composição, a música como um todo, fez o que sabia com sua guitarra. Enfim. Não tenho muitas palavras para falar de algo tão lúcido e musical como foi o show do Terreno Baldio. Alimentou a alma e deu aula de técnica sem perder o feeling e a poética. Terminado o show, saímos para dar um giro, preparando a alma e cabeça para a ‘porrada sonora’ que logo viria.




Nação Zumbi, 1h.

Graves como jamais ouvi/senti antes. A força dos graves do show porrada da Nação Zumbi me fez lembrar do ‘segundo show mais grave’ que já pude ver/ouvir, o do Rappa. Trazendo os tambores nordestinos do maracatu, o sotaque, a energia, a crítica social, a presença intensa de palco e o peso da soma dos graves do baixo, sintetizadores e tambores com o peso da distorção da guitarra, Nação Zumbi fez, como haveria de ser, o chão tremer. Um baita show! Porrada mesmo! Fiquei alguns dias para me livrar das vibrações graves do show da Nação. Um show para ‘acordar Zumbis’ (em algum sentido), literalmente! O nordeste e sua força cultural-musical com digna presença no Psicodália. Contando com o respeitado músico e produtor Pupilo na bateria, Nação Zumbi, seu maracatu e peso, deixou a marca do nordeste no Psicodália.


















Terminado o show, fomos até a praça de alimentação repor as energias comendo algo. Papo vai, papo vem, encontros com amigos/as, o cansaço veio e acabamos rumando para a pousada, pois no domingo seria a nossa vez de subir a um dos palcos do Psicodália.




















Continua...




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