domingo, julho 19, 2009

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MOVIMENTO, s.m. Estado em que um corpo muda continuamente de posição em relação a um ponto fixo; deslocação; variação de algumas quantidades; afluência de gente movendo-se; (...); rebelião; revolta; motim; (...); animação; agitação; andamento musical; evolução de idéia; marcha dos astros; marcha de tropas. mo.vi.men.to

(Dicionário Silveira Bueno, 1898 – 1989)

segunda-feira, julho 13, 2009

A propósito...

Música

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.

Anna Akhmátova

e.po.pei.a (poema épico)

1. (na Literatura): extenso poema narrativo onde o divino se confunde com a realidade, e a lenda com a história, geralmente invocando algo ou alguém de valor extraordinário: 2. ato ou atos de características grandiosas, dignos de uma epopeia.

A epopeia nasceu junto a história da humanidade. Enquanto trajetória, a data é incerta. É provavelmente o mais antigo texto literário escrito pelo homem. Com Homero, a epopeia é algo ‘fantástico’, uma macro-história de feitos contada em versos. E o tempo passa e a epopeia continua, agora refeita em ‘epopeias’. Foucault confirma essas, agora micro-histórias: epopeias de vidas pessoais narradas por historiadores, literatos e poetas, pela música ou pelo próprio protagonista. De algo macro, a ‘epopeia humana’, assim como a história e a poesia, passam a ser também particularizadas, ou seja, a história de cada um e de cada coisa, tem um valor insigne em si. Seja nas artes ou no cotidiano, no fantástico-além ou na realidade (seja ela abrupta ou não), a epopeia está presente em suas pequenas histórias (mas não menos importantes e relevantes). Tratamos agora de uma epopeia que surgiu na década de 1950, filha do jazz e blues (negro) com a música country (branca). Já nos anos de 1960, o rock, além de música, se confirmou como modo de vida de uma juventude que buscava seu espaço, sua própria voz. E foi nos anos 60 também que figurou no cinema o filme ‘2001: uma odisséia no espaço’ (epopeia futurista de Stanley Kubrick)... e é justamente no ano de 2001 que surge a banda Epopeia. E o que isso tem haver com história, literatura, poesia, cinema, artes? Muito... por fazer parte da história da humanidade e da história pessoal de cada um. A banda surge por uma necessidade em primeiro lugar: a de se expressar, comunicar, livremente, utilizando-se da linguagem musical. Mais tarde, passando significar sua continuidade através dos elementos que a constituem: no cinema, Stalker e Solaris de Tarkovsky, 2001 e Laranja Mecânica de Kubrick, assim como a trilogia do Silêncio de Bergman, enquanto Odilon Redon nas artes plásticas (na fase carvão de ‘o sonho - os negros’), inspiram ambientações sonoro-visuais à Epopeia e contribuem significativamente para sua constituição.

em mo.vi.men.to


“Uma máscara toca ao morto” (Odilon Redon)

* Nota sobre a arte-concepção (conceito), do disco:

A estética do disco - a cor (ou a falta dela):

“Por mais estranho que pareça, embora o mundo seja colorido, a imagem em preto e branco aproxima-se mais da verdade psicológica e naturalista da arte, fundamentada em propriedades especiais da visão e da audição.” (Tarkovsky)

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- o exame de consciência

1. Intro.versão: (leia-se, exame íntimo da consciência); Por tudo o que foi e é.

* Motivo e razão para a proposta do disco: ‘passado e presente’. Tudo o que foi, passa a ser somado ao que é, re-significando o passado e constituindo o presente que é uma soma do que foi e de algo novo que ainda não se sabe ao certo o que é.

- que gerou o conhecimento de si próprio, levando-o à assumir-se

  1. O que penso de mim: Nós, humanos (ou o homem ‘eu’- eu e o outro), vivemos em tentativa de adaptação a natureza, sempre em conflito com o meio e consigo mesmo. Ao longo da história, criaram-se conceitos, valores e atributos aos seres humanos, na tentativa de designar características, personalidades e até referências do que é ‘este homem’, que mesmo em estado social, dentro de um todo, continua sendo único. Nisso, identidades se perdem e outras se criam. Constituíram-se morais e ordens que classificam o homem em grupos e/ou tipos de pessoas, segundo seu caráter individual/social. Nisso, a desigualdade, assim como uma tentativa de igualdade, que respeite as diferenças, acontece cotidianamente entre os homens. Além disso tudo, vivemos conflitos internos e externos, e todos vinculados a nossa existência. Sonho e realidade são constantes, e quem não tem realidade ou sonho em si, não vive, apenas existe fisicamente. “Horas estamos aqui, em nós mesmos, dentro de nossa realidade social/individual; horas fora, além, independente dos conceitos e do meio que nos cerca”. Há algo de misterioso nisso, algo espirituoso que vai além da razão, que ultrapassa os limites do conhecimento humano. Somos compostos (além de matéria e espírito/alma), do que ouvimos, comemos, compreendemos, e pensamos. Independente do que outros digam, do que nos conceituem dentro de um quadro social/moral, também somos o que pensamos ser: Nunca estou / Mas eu sou / O que eu penso de mim”.

- das invenções que se movem: instrumento que imita um evento da natureza, gera vento e assim, movimento

  1. Ventila-dores: Vivemos n’um mundo complexo e burocrático que nós mesmos criamos, além da natureza, e a natureza continua além deste mundo, caótica e livre. Tentamos ordenar nossos dias, estar seguros dentro do caos. Mas essa pretensa e idealizada segurança tem um preço: exploramos a natureza, consumindo seus recursos em prol deste mundo ‘organizado’ feito regras e mecanismos funcionais. Nisso, criamos espaços fechados (casas, escritórios, fábricas, etc.), onde podemos nos sentir seguros dos trâmites da natureza, e produzir nosso próprio meio. Mas até que ponto essa segurança é real? Disfarçamos nossas ‘dores’ e medos com paredes e sentimentos de segurança e certeza, mas nosso próprio mundo é incerto e caótico, assim como a natureza. Hoje, mais do que nunca, precisamos de ar (não puro, pois este já deixou de existir há um bom tempo). Ar que amenize o dito ‘aquecimento global’ ou ‘efeito estufa’. Precisamos de vento na carne para nos sentirmos pelo menos vivos. Então foi criada uma ‘máquina de fazer vento’, e isso, de certa forma, reproduz um evento da natureza, tão necessário para o corpo quanto para a alma. Os ventiladores, ventilam além do corpo, idéias, espaços onde o corpo e a mente se abrigam... ventilam dores. O ar fresco e o vento, nunca foram tão desejados quanto hoje, quando a humanidade sofre com o calor causado pela sua própria maquinaria, pelo seu próprio excesso. Os ventila-dores estão para amenizar uma falta, colaborar na satisfação de uma necessidade humana. Ventila-dores, assim como o globo, como rodas e cata-ventos, giram. É o andamento da vida, a continuidade do caos. Fixar os olhos em um ventilador por determinado tempo pode fazer enlouquecer. É a realidade que gira (ou a cabeça, depois de uma noite embriagada?). Ventila-dores provocam movimentos... E a equação? É pra não entender.

- o homem assumindo a si próprio, passando assim a conceber o mundo como sua casa, tendo o vento como companheiro

  1. Vagamundo (ou ‘Com o Vento’): Ele vagueia pelo mundo, errante, livre; Dentro (ou fora?), de um mundo cheio de burocracias, conceitos, ordens, artificialidades, maquinaria: escravidão. Um viajante que bebe seu tempo em tragos destilados do melhor veneno. Não espera sentado-acomodado a hora de morrer, nem seu salário no final do mês. Não canta a velha canção que diz: ‘Vou andando contra o vento...’. Não quer liberdade institucional, quer estar com o vento no meio da tempestade: ‘Vou andando com o vento...’. O Vagamundo quer andar, só por andar. Ele descobriu o que realmente é. E o que ele é, é o que pensa das coisas e de si próprio. O Vagamundo, não se importa mais com os conceitos inventados para rotular humanos. Para o que vagueia pelo mundo, o momento é algo importante. O passado já foi e o futuro não existe (ele ainda não chegou e nunca chega). Tudo é presente e o passado um espelho que reflete... O futuro é o eterno ‘nunca chega’. Para diminuir e insignificar o Vagamundo, existe o termo ‘vagabundo’, em uso discriminatório e preconceituoso. Isso porque o Vagamundo representa perigo à cultura do medo. Sua casa é o mundo por onde vagueia. O Vagamundo não tem ouvidos para os medíocres, como o Zaratustra de Nietzsche, cansou-se dos cadáveres. Ele continua com o vento, andando, enquanto o chamam “vagabundo em vão...”

- a tomada de consciência, onde se reconhece o próprio eu e o meio como algo que precisa se mover e transformar-se junto à natureza... a continuação

  1. Novo início: Tudo o que vivemos, por tudo e por onde passamos, acumulamos experiências, conhecimentos (perdemos alguns, e somos constituídos a partir desse movimento: ‘o andar para qualquer lugar ou para lugar nenhum’. Os sentidos apuram ou desaparecem com o tempo. Nisso, a humanidade se constrói e se perde. Encerrar o mundo atrás de nós e começar outro novo, participar de um novo contexto. Quando ‘os profetas do apocalipse’ dizem: ‘o mundo vai acabar!’, desconfie. Nós morreremos, é certo, mas o mundo continua, independente de nossa existência ou não. A natureza é viva, e é dela nossa maior fonte de alimentos, e para ela, seremos apenas compostos orgânicos quando este mundo se transformar. Muitas idéias prevalecerão, continuarão, outras, sucumbirão no vento. É preciso rever o mundo e a cultura, compreendendo o Movimento Caótico das Coisas, ou, o próprio Caos, não como ‘fim de mundo’, mas sim como ‘possibilidade de transformação’. É importante saber o que seremos no futuro? E não seria mais importante ainda saber o que somos agora, no presente? Adquirir olhares do andante que vagueia com o vento. É preciso despir o mundo, viver mais intensamente o momento, pois todo ele é único, e o que foi dito e feito uma única vez, ecoará para todo o sempre. Parte essencial de toda transformação: ousar: CANTAR – AMAR – VIVER – SONHAR. Cantar: ninguém nem nada ama sem uma canção, seja ela na ponta da língua, no vibrar das cordas vocais, ouvida e composta pela cabeça ou mesmo na alma. Amar: ninguém vive sem o motor da vida que é o amor (aqui também entendido como prazer – amor depende de prazer e prazer depende de amor). Viver: ninguém continua se não sentir amor/prazer. Existir, até é possível, mas há pouca diferença entre existir e morrer, são duas coisas que não suscitam movimento, apenas reprodução-estagnada. Sonhar: porque quem não vive não sonha (e vice-versa), apenas existe. A vida é real, o sonho, pode ser... A vida é intransferível, o sonho, também. Enfim, a vida prossegue, caótica, abundante, intensa, misteriosa... viva. ‘Virar o disco’ é prosseguir; do outro lado existem outras canções para serem ouvidas e/ou cantadas. O que não se transforma morre, como o que não se move já está morto. Por isso, é necessário andar, sempre, rumo à um “Novo Início”.
Esculpir el tiempo: O passado e o presente encontrando-se intimamente para um diálogo musicado. O som das coisas desconhecidas. O espírito do silêncio que canta por trás do que se ouve nitidamente. Suas melodias são absurdas e lindas, espirituosas, duras e cheias de nuances. As imagens não esclarecem nem delatam, apenas sugerem. A poesia acontece, mesmo que quase imperceptível, assim como a provocação e a transformação. O desConcerto do habitual... tudo em mo.vi.men.to.

desConcertanto o habitual

“Stalker” (Andrei Tarkovsky)

http://www.ufscar.br/rua/site/?p=1793

* Notas sobre a trilha sonora (Intro.versão / Esculpir el tiempo):

A textura sonora - o som (ou a falta dele):

“(...) Não um silêncio qualquer que cala e não fala, e sim o silêncio próprio do sem fronteira que as palavras carregam. Stalker não é apenas um filme nem se limita a uma obra de arte. Há algo de outro que se esgueira na gritaria do silêncio das imagens e sons.” (CineSophia)


CríticArte...

“O que hoje passa por arte é, na sua maior parte, mentira, pois é uma falácia supor que o método pode tornar-se o significado e o objetivo da arte. Não obstante, a maior parte dos artistas contemporâneos passa o seu tempo em exibições auto complacentes de método.”

“A questão da vanguarda é peculiar ao século XX, à época em que a arte vem progressivamente perdendo a sua espiritualidade. A situação é ainda pior nas artes visuais, que hoje estão quase inteiramente privadas de espiritualidade. A opinião corrente é a de que esta situação reflete a “desespiritualização” da sociedade moderna, um diagnóstico com o qual, a nível de simples constatação da tragédia, concordo plenamente: trata-se mesmo de um reflexo da atual situação. A arte, porém, não deve apenas refletir, mas também transcender; seu papel é fazer com que a visão espiritual influencie a realidade, como fez Dostoiesvski, o primeiro a expressar de forma inspirada o mal da época.”

Andrei Tarkovsky em “Esculpir o Tempo”