segunda-feira, abril 24, 2017

Parte III “Ai bota aqui, ai bota ali o seu pezinho, o seu pezinho bem juntinho com o meu...”







  – Segunda, 27/02 

Não lembro muita coisa da segunda. Não lembro muita coisa da terça. Só sei que acordamos e o festival continuou. Teríamos mais dos dias inteiros e duas noites para curtir, registrar, viver o Psicodália, e foi o que aconteceu. Disso eu sei, isso eu lembro. Não fossem as fotos, ficaria difícil relembrar dos dias, do que fizemos ou aconteceu. Sim, o lago. Fomos nós, dar um role em torno do lago, fotografar. Só não lembro se era de manhã ou de tarde. Mas também não importa. Alguns registros e uma pausa para deitar na sombra e relaxar, descansar. Dormi por alguns instantes. Não sei quanto tempo. Acordei com um cachorro se espojando ao meu lado, no meu corpo. Acariciei um pouco o bicho, até que ele, já satisfeito saiu camperear. Subimos num ponto mais alto, bem em frente ao lago para alongar o corpo e absorver energias da natureza. Fiz uma breve prática de Chi Kung e umas formas do Wing Tjun, enquanto a Liza e o Sergio também se esticavam com Chi Kung e Yoga. Coisa boa integrar a natureza e trocar energia. Depois deste tempo introspectivo e silencioso, com as energias renovadas, voltamos para a movuca tomar uns chopes e encontrar pessoas. Fui até a oficina de Kung Fu, estilo Hungar, garra de tigre. Oficina básica e muito boa! Conversei um pouco com o professor e registrei um tanto da oficina. O tempo passou, a noite caiu, fomos mexer um pouco o esqueleto em frente a Rádio Kombi onde acontecia a Noite Balcan, ao som de Goran Bregovic. Então, os shows no Palco Lunar começaram. Não pude ver Iconili, só ouvir, um pouco de longe, inserido que estava em meio a um papo filosófico com amigos/as. Mas posso dizer que a banda é muito boa. Tocam demais! Fomos para o lado do palco, começaria o show do Tremendão, Erasmo Carlos. Mas antes, passamos no Bar do Meio pegar uma bebida, que fica entre os palcos do Sol (dos Guerreiros) e Lunar e, o inusitado, o caótico, a catarse coletiva, aconteceram. Em frente ao Bar do Meio tinha um tablado de madeira. O grupo de amigos com quem estávamos, começou a brincar dançando ‘chula’ no tablado (dança típica gauchesca), eu e mais alguém de que não lembro começamos a fazer a melodia ritmada da música da ‘chula’ com a boca. Foi quando, do nada puxei o pezinho cantando ‘ai bota aqui, ai bota ali o seu pezinho, o seu pezinho bem juntinho com o meu...’ Uma amiga que sabia a dança começou a dançar e de repente apareceu outra garota que também sabia, juntaram-se e a dança se fez junto a cantoria que naquele momento já era em coro e a batida de pés ritmados de várias pessoas, no bom estilo tribal. Tudo adquiriu uma proporção maior e o barulho e a diversão foram grandes (alguém filmou aquilo?). Coisa doida e sem planejamento algum. Apenas aconteceu, a partir de alguns ‘motores’. Teoria do Caos, espiritualidade(s), energias integradas. Psicodália! Foi demais!



Erasmo Carlos (Palco Lunar) como já era de se esperar, fez um belo show. Cantando com uma banda muito boa, trouxe a jovem guarda repaginada ao palco. O bom e velho rock and roll, como poucos. Muito simpático e comunicativo, embora estivesse um tanto ‘cansado’, talvez pela viagem e idade, mas mesmo assim fez um belo show. O ‘Tremendão’ não se entrega! Músicas cantadas em coro pela plateia, em mais uma grande atração oferecida pelo Psicodália. A fazenda cheia e pulsante. Muita gente, muita alegria e energias positivas. Viva o Tremendão! Viva o Psicodália!





















Confraria da Costa continuou com a festa no Palco Lunar. Novamente, mais um belo show dos marujos, como de costume. Uma das bandas mais ‘populares’ e festivas do festival. Canções de pirata para muitas conspirações pela fazenda. E a Confraria, mais uma vez, deixou sua marca no festival e alma e sorrisos que dançavam, cantavam, abraçavam, beijavam seus iguais e a vida...



 


Relespública (Palco dos Guerreiros) subiu ao palco com muita empolgação. Nunca havia visto a banda ao vivo, mas conhecia algumas músicas. Um bom show com algumas boas canções. Me fez lembrar, em alguns momentos, muito do chamado ‘rock gaúcho’. Energia e rock para embalar a madrugada dos ‘guerreiros’.



Mais uma noite encerrada na fazenda Evaristo e o cansaço era grande. Fomos dormir. Teríamos mais um dia e uma noite de diversão e ‘trabalho’ para cumprir. O fim do festival se aproximava, lá, onde o tempo parece parar...


“De manhã sou um. De noite já fui dois. Seremos quem somos” 

Terça, 28/02

Terça amanhece com ar de despedida na fazenda Evaristo. No rostos das pessoas, um misto de tristeza por saber que o Psicodália esta terminando e de alegria por saber que tem mais um dia e uma noite de diversão. Mas o dia apenas começara e o tempo é uma criança que sonha sem saber que está dormindo (sujeito a variáveis interpretativas). Um dia alegre, suave, de caminhadas. Fomos até o centro visitar a estação, museu e oficina de trens de Rio Negrinho. Todo ano fazemos isso, apaixonados pelo cavalo de ferro que somos. Algumas fotos, alguns olhares. Almoçamos, voltamos para a fazenda e mais um role pelo último dia do festival. Até o show que esperávamos ver.



















Recordando o Vale das Maças (Palco Lunar – de tarde) subiu ao palco com seu show instrumental, muito bem tocado. Um progressivo bem brasileiro com timbres que me lembraram um pouco os anos 80. Bom show! Achei que tocariam alguns ‘clássicos’ cantados do disco ‘As crianças da nova floresta’ (1977) - um belo disco! Mas não aconteceu. Foi um show muito competente. Músicas mais recentes e outras nem tanto. Curti(mos) quase até o fim...






 Mais uma banda (caminhada), mais tiros (fotos), mais e mais... no caminho não havia uma pedra, mas havia um grupo de samba e maracatu, girando pela fazenda, integrando, provocando, convidando. Bom demais! Fiquei um tempo sentindo e integrando aquela arte (além de registrando). Como o Brasil tem boa música, boa cultura, arte, boas pessoas e seus risos. Pena que nossa política institucional-oficial, quase toda é estúpida e medíocre. Poderíamos ser muito mais, não fosse isso. Mas, vamos lá, perseverança! Diversão e energia, baterias carregadas para a noite que logo viria com ‘Ceu’ encoberto(a) por estrelas. E veio...

Ceu (Palco Lunar), antes mesmo do show, esbanjou simpatia e simplicidade na coletiva de imprensa. Muito sutil na sua força de mulher vivaz e integrada ao contemporâneo e suas nuances. Um nome tão curto e tão bonito para um show tão longo, intenso, belíssimo! Um tipo de show que dignifica qualquer artista, arte e festival. Cantou, atendeu o bis, e continuou, até o tempo passar. E como passou. Passou com alegria, poética, experimentalismo, suavidade, força, intensidade. Como é o céu, quando coberto de estrelas e com o brilho intenso da lua. Belas composições e um instrumental impecável, de belos timbres, efeitos, arranjos que acompanhavam a voz de sua cantora. Música moderna, eletro-space-rock-pop-mpb-jazz-psicodélico (algo assim). Um dos grandes shows do Psicodália! Ceu é mulher sensível que no palco agiganta-se e mostra uma força feminina que vem literalmente do céu. Obrigado Ceu! Obrigado astros e deuses e deusas da arte e da música, por mais este momento!






Central Sistema de Som convida Gerson king Combo, subiu ao palco um tempo depois. Aliás, só a Central Sistema de Som nas primeiras músicas. Groove, funk, soul. Instrumental de alto nível! Até que de repente Gerson King Combo se faz cintilar de capa vermelha e perna quebrada. Isso mesmo, o mestre sentado num trono cantou e fez dançar a multidão mesmo com uma tala na perna, o que não impossibilitou o ente cheio de energia e história de levantar por algumas vezes e arriscar algum balanço, afinal, rei é rei, e quando canta-dança, mostra como se faz. Soul-Groove-Funk brasileiro pra swingar e botar o Psicodália pra dançar. Esse foi o showzaço da Central Sistema de Som e Gerson King Combo, nosso último show desta edição. Queríamos ter visto a Bandinha Di Dá Dó, do nosso estimado amigo e organizador de outro grande festival, o Morrostock (o qual tivemos prazer de tocar com a Epopeia na sua mais recente edição),  Paulo Zé Barcellos, o Zé Docinho (baterista), que nos contou que seria um show novo. Infelizmente, pela primeira vez no Psicodália, não foi possível.






Quando acordamos já era de manhã, em tempo de arrumar as coisas, levantar acampamento, levar em duas viagens as coisas até o estacionamento, longe do lugar onde acampamos, nos despedir de quem deu para fazer, e rumar de volta para o velho oeste. E assim foi. E assim, mais uma vez, foi o Psicodália, pelo olhar deste que voz fala (escreve). Obrigado, mais uma vez Psicodália, em nome da Epopeia – banda e coletivo sociocultural (Liza, Fernando, Eliz e eu), sob tudo aos colegas artistas, oficineiros/as, da imprensa, amigos/as daqui e de lá, Alexandre Osieski, Adriane Perin e demais colegas de ‘causa’ e trabalho que integram, a sua maneira ou modo, a cena alternativa independente das linguagens artísticas e sociais. Valeu pessoas! Valeu Psicodália! Até a próxima! ❤❤


 













segunda-feira, março 27, 2017

“Já sei pra onde vou. Eu vou sentir o calor da rua!” - Domingo, 26/02

O domingo acorda alegre e preguiçoso, e nós com ele. Lentos e sentados em frente às barracas contemplando as paisagens (sim, no plural: natureza, intervenções humanas no espaço e pessoas). Sou adepto a contemplar, observar. Desde criança. Gosto de ver, perceber, ler, pensar. E foi observando e pensando que pensei: Se me pedissem para resumir o Psicodália 2017, mesmo não havendo a real possibilidade, talvez eu diria que foi um Psicodália recorde em acampados e em diversidade, principalmente de gênero. O Psicodália mais Black/Soul/Funk, brasileiro e LGBT de todos até então. Este foi um aspecto, no mínimo, interessante deste Psicodália. As diversidades, ditas ‘minorias’, os grupos socioculturais como tribos reunidas, manifestando, seus modos, suas artes, suas palavras, suas políticas. Algum modismo? Sim, provavelmente. Mas muita realidade. Pertenço a algum grupo? Não sei. Acho que sim. Ou não?! Talvez! Mas vamos lá, nem só de pertencimentos vive o homem. Digo, o ser. Às vezes gosto de não pertencer, não estar, não ser. Às vezes, gosto!

 Enfim. Divagações a parte, vamos aos fatos...





Nossa noite começou com a Noite Latina na Rádio Kombi. Uma mexida no esqueleto com amigos/as e preparar a alma e o corpo e a mente para um dos shows que mais esperávamos ver nesta edição do Psico...

Francisco, el Hombre (Palco do Sol) foi o esperado. Grande show. Grande banda! Música contemporânea brasileira, com o gingado, a musicalidade e o recado. Os ‘Fora Temer!’ continuavam. Volta e meia alguém puxava e o grande público mantinha. A banda feita da diversidade de que eu falava acima. Uma das que mais representa isso, esta ‘mistura’ de formas e modos de ser-estar. Um show intenso, dançante, crítico, artístico! Entre meus preferidos do festival. Como guitarrista que sou (ou pelo menos tento), as linhas e arranjos de guitarra da banda muito me agradam. Um hino dançado e cantado em coro pelo coletivo multicultural que é o Psicodália. Não é por nada que leva o nome de ‘movimento’ Psicodália. ‘Ir e sentir o calor da rua’, do público, das relações. Eis! Obrigado banda! 

Obrigado Psicodália! Viva Francisco, el Hombre – e as diversidades!




 


Um intervalinho e no Palco Lunar começa um dos shows mais esperados desta edição pelo grande público, Ney Matogrosso. O ex (ou eterno?!) Secos & Molhados brilhou (literalmente) no palco do festival. Um belo show, como haveria de ser. Bem musical e estético. O cara é bom! Tem bela história. É profissional. Sabe o que faz no palco. E canta, canta muito! E dança, e brilha. Porém, alguns (assim como eu), acharam o show um pouco curto e formal demais para um festival como o Psicodália. Não lembro de ter visto/ouvido Ney dirigir a palavra ao público (nem tão integrado ao espírito do festival), ao contrário de TODOS os outros artistas que por ali passaram. Eu diria, um tanto ‘platônico’. Mas também, não tem que ser igual, não é mesmo? Um belo show. Sem bis, e com pouca aproximação. Mas bonito, bem feito, um tanto ‘objetivo’. Gostei. Não muito mais que isso. Valeu a pena? Valeu! Curtiria novamente se tivesse. Mas não elegeria entre meus preferidos dos mais, digamos, ‘consagrados’ ou conhecidos. Enfim...

 

Depois do Ney Matogrosso, saímos trocar um pouco o ar e acabamos perdendo um que ouvi falar, foi grande show, Los Pirañas. Banda latina. Queria ter visto/ouvido. Mas, infelizmente, nem tudo se pode ver/ouvir num lugar cheio de atrações, amizades, paisagens fotográficas. São várias as seduções que o Psicodália promove. Fomos até o CTG, no segundo piso onde a imprensa desenvolve seus trabalhos. Lá sentamos numa roda e rolou um agradável tempo de bate-papo entre ‘colegas de trabalho’. Falamos dos shows, do cenário político atual, das coisas da vida, entre muitos risos e algumas seriedades. Adriane Perin (responsável pela imprensa do festival) e seu companheiro Ivan Santos (que também trabalha com jornalismo e é compositor), Luciana Penante e outros/as, são pessoas sérias no trabalho - e divertidas. Também, não haveria de ser diferente. Trabalhar com arte e cultura, por mais difícil que possa ser, é divertido e recompensador. Graças a trabalhos como estes é que temos espaços e momentos como este – o Psicodália, no caso. Passado um tempo, já em postos novamente, sobe ao Palco dos Guerreiros, outro dos shows que mais queríamos ver.


Roberta Motta, Adriane Perin, Luciana Penante..

Fernando Sbeghen, Herman..





Liza, Lu e Fernando..


Ian Ramil (Palco dos Guerreiros) é filho do grande compositor gaúcho Vitor Ramil e sobrinho dos irmãos Kleiton e Kledir (Almondegas – grande banda gaúcha dos anos 70). Como fãs desta sua família musical, não poderia ser diferente com ele. Independente das influências, da família, o cara compõe pra caralho! Belíssimas musicas muito bem executadas. Bandaça! E que show! Valeu cada acorde. Um dos grandes shows do Psicodália. Curtimos demais! Um misto de música brasileira, MPB, com Jazz e Progressivo. Algo neste sentido. Ian Ramil e banda trazem algo ‘diferente’. Leveza e muito peso na mesma composição. A presença de Ian no palco é de uma serenidade, seu cantar de uma espontaneidade. Tem espiritualidade em si e na sua música. Acho que é esta a melhor forma de traduzir o que é a banda e seu cantor-compositor. Música e linguagem contemporâneas com espiritualidade, no conceito de Tarkowski. Demais! Espero que retorne ao Psicodália, assim como achava que viria novamente o grande show do Cidadão Instigado. Bandas assim não devem nada ao passado, a não ser a continuidade daquilo que é bom. Ian Ramil comprova que a música e o rock nacionais estão vivos e ativos, assim como foi com a próxima banda que veio...

 
 

The Baggios sobe ao Palco dos Guerreiros. Como já era esperado por nós, uma porrada sonoro-musical. De dupla que eram (são) a trio (presença de um tecladista no show). Demais! O rock e sua visceralidade, numa grande qualidade musical! Arrepiei com os timbres da guitarra. Belas composições as do Julio Andrade. Tivemos o prazer de conhecê-lo pessoalmente alguns anos atrás, ali mesmo, na noite, pelas ruas do Psicodália, quando veio tocar com a Plástico Lunar (outra das nossas bandas preferidas que já tocaram no festival). Na ocasião ganhamos um CD dele, e foi onde passamos a conhecer e nos tornar fãs do Baggios. Naqueles anos, Julio era guitarrista da Plástico. The Baggios é uma banda de Aracajú, capital do Sergipe. Um duo (que é trio também) e que manda brasa no palco, além de ter belíssimas composições. Assim como o Ian Ramil, seu mais recente disco é dos grandes discos do rock nacional destes últimos anos. Depois encontramos Julio mais algumas vezes pela fazenda, com a simpatia e simplicidade de sempre, trocamos algumas ideias. Pelo jeito também acampava por lá. Um baita show de uma baita banda! OBRIGADOOO The Baggios!


 


Andes de cair na barraca, conseguimos ver um naco da Tagore. Já era bem tarde e o cansaço bateu forte. Dei um ou dois tiros. O show estava bom. A galera curtindo e respondendo à altura. Mas não teve jeito. Fome, sede, cansaço. Comer algo e cair no colchão foi o canal. Dali algumas horas a vida continuaria com toda sua intensidade no Psicodália. A diversão e o trabalho...





* Textos: Herman Silvani
* Fotos: Herman e Liza Bueno


Continua...