Terça, 04/03
Da barraca ainda se podia ouvir os resquícios
da noite passada. Um som ao longe acordava o dia com alegria. O Psicodália,
além de tudo, é um festival para resistentes. Os que resistem a enxurrada de produtos medíocres e massificados, impostos pela indústria da cultura e sua
ideologia publicitária de mercado. Os que resistem ao enquadramento do tempo e
do corpo e mente no tempo, na produção de coisas, meros produtos de consumo.
Tudo no Psicodália, até os produtos de consumo tem algo para dizer, algum conteúdo, algo
simbólico, linguagens. Acordar com um bom som tocando ao longe e saber que
estamos num lugar onde prevalece o bom senso ou certa amistosidade entre as
pessoas, alegra a vida. E este seria o último dia de shows nos palcos do
Psicodália. Digo palcos, porque em outros espaços o som continuaria...
Di Mello (Imorrível) – Palco Psicodália, 13h30min. aprox.
O ‘imorrível’ Di Mello sobe ao palco com uma
banda de apoio composta por músicos de outras bandas do Psicodália, e alguns
que pelo visto, o cantor/compositor trouxe junto. Formaram uma bela banda,
diga-se de passagem, onde o suingue, o Black-soul-funk, comeu solto. Um show
dançante e cheio de balaço, como poucos, que fez a galera dançar, cantar, sorrir,
e pensar, sim, pensar. Um ‘Q’ de ‘marginalidade’ (no sentido ‘rebeldia’ e não
‘crime’, se é que me entendem?!), caracterizou também essa apresentação. Numa
linguagem mais, digamos, ‘suburbana’ ou ‘racial’ (Black), Di Mello deixou seu
recado e rica sonoridade, afirmando como ninguém sua origem e pra que veio. Uma
baita apresentação desse mestre do soul brasileiro. Sem mais...
Almir
Sater - Palco Psicodália, 15h. aprox.
Enquanto uma tempestade se arma, o pantaneiro
Almir Sater, acompanhado de boas parcerias, sobe ao palco, tímido, mas com
muita musicalidade. Um homem de poucas palavras, tímido sorriso e muita música.
Assim foi o show de Almir Sater. Entre canções velhas e novas, os ‘clássicos’,
cantados em coro pela multidão que se abrigava em baixo da gigantesca cobertura
em frente ao palco. Lá fora, vento e muita água. Passada a tempestade, o show
continuou. A chuva veio e trouxe consigo novos ares, mais frescos e puros para
a fazenda Evaristo. O pouco lixo no chão fez com que, depois da tempestade,
tudo parecesse virgem ainda. Uma outra das boas características do Psicodália,
é certa ‘consciência ambiental’ ou respeito com o espaço e com o outro. Muitas
lixeiras espalhadas pela fazenda pelo pessoal da organização, faz com que o
ambiente prossiga um tanto ‘limpo’ e apto para a convivência. Voltando ao show,
Almir Sater cativou a galera com sua simpatia tímida, suas canções que falam da
vida, das coisas simples e do mundo no interior. Um belo show com belas
canções. Como foi bom ter visto/ouvido, ao vivo, pela primeira vez esse mestre,
algo que eu almejava já a algum tempo. Enfim, mais um momento prazeroso e
feliz.
Sopro
Cósmico - Palco Psicodália, 18h. aprox.
Finalizando as atividades do Psicodália 2014
nos palcos externos do evento, eis que, mais um ano, sobe ao palco a banda
Sopro Cósmico, um ‘power trio’ composto por bateria, saxofone e teclados. Um
trio bastante virtuoso e dono de belas composições. Um baterista muito rápido e
pesado, um saxofonista bastante dinâmico e um tecladista... Bem, um tecladista
que é maestro, músico excepcional e performance. O cara (tecladista) toca
demais! Quando digo demais, é muito mesmo! Um dos melhores que já pude
ver/ouvir. No ano passado já havia curtido o show dos caras, e neste ano,
novamente, fizeram o ‘dever de casa’. Não há como não lembrar ou relacionar com
o trio Emerson, Lake & Palmer. A nível, a nível! Um show instrumental cheio
de energia e boas performances, para encerrar as atividades com muita ‘classe’
dos palcos externos do Psicodália 2014. Acabamos fazendo poucos registros dessa banda, pois a loucura era muita e as baterias das câmeras eram poucas. Agora, o rock continuaria no palco
livre, dentro do saloon. Demos um tempo na praça de alimentação para um chopinho e algum lanche, depois prosseguimos a empreitada no saloon.
*
Rachamos um bom churrasco na ‘cozinha
comunitária’ com os amigos que sempre acompanham a Epopeia nas suas
empreitadas, o Diogo, Augusto, Vigui, Douglas (entre outros/as), e os cariocas
Jorge (Arcpelago), Ronaldo (Arqpelago e Módulo 1000) e o Fonzi. Entre um
petisco e outro, um trago e outro, bate-papos sobre música, arte, política,
filosofia, etc. Passamos algumas horas bem agradáveis ali. Já dentro do saloon,
no palco livre, uma banda de punk rock mais, digamos, 'tradicional' ou direto. Para quem acha que o Psicodália segmenta, uma das maiores provas de que não. Punk rock nacional no palco livre, em pleno saloon, mesmo não sendo essa a 'proposta' do festival. No caso, e neste sentido, penso que a 'maior proposta' é esta mesmo, a 'diversidade' e as 'expressões' em movimento, integração. Depois, ainda tivemos a banda em que toca baixo um dos organizadores do Psicodália,
o Alexandre Osiecki. Sei que ele toca numa banda chamada Cores Berrantes, e que se apresentou num dos palcos externos do
Psicodália num dos dias do evento que, infelizmente, não pude ver. Mas não
tenho certeza se era a mesma banda que tocava no momento no saloon. Ficamos um
pouco por ali, curtindo o bom som dos caras e trocando ideias e nos divertindo com
amigos, conhecidos e desconhecidos. Em frente ao saloon, mais um tempo de bons diálogos com o amigo Jacir (Sopro Difuso). A madrugada chega. O tempo passou e
saímos dar uma volta pela fazenda, curtir os últimos momentos da última noite
do evento, até o cansaço bater e o sono chegar...
Rock no Saloon (Palco Livre):
Quarta,
05/03
Psicodália
2014 de carnaval, Palco da Vida, em qualquer tempo...

Final de empreitada, último dia de
Psicodália. Acordamos com uma garoa fina e um som agradabilíssimo vindo da
frente do saloon. Ficamos por algum tempo deitados (eu e a Liza) ouvindo a
sonzeira da barraca. Já era quase meio dia e o som prosseguia. Desarmamos
acampamento com trilha sonora. Uma passada em frente ao saloon curtir o som dos
caras e fazer mais algumas fotos pela fazenda até que o ônibus da excursão de
retorno ao Velho Oeste chegasse. Lá pelas 14h. o bus chegou. Tomamos rumo.
Chegamos em Xapecó a noite, um tanto cansados mas com a alma refeita, com novas
referências e ideias musicais, artísticas, filosóficas, prontos para continuar
integrando a vida, já aguardando a próxima edição do evento, as novidades e
continuidades. Como membro da banda Epopeia, que já teve uma boa experiência e
oportunidade em subir num dos palcos do Psicodália, quando tocamos na edição de
ano novo 2013-2014, sendo uma das bandas que fechou os palcos externos do
festival, não há como não ficar na expectativa de sermos chamados novamente,
pois são festivais ou eventos como este que nos fazem seguir, bons e reais espaços
e motivos para a existência e continuidades de bandas como a nossa, já que são
as composições próprias que nos dão o sentido de ser. Enfim. Parabéns, mais uma
vez, aos organizadores e ao público presente! Obrigado às bandas, artistas e
amigos que nos privilegiaram com suas presenças e interações! Longa vida ao
Psicodália! Até o ano que vem! E que essa Epopeia continue... Em movimento!











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Enfim... Não há Fim!
Fotos: Herman G. Silvani e Liza A. Bueno
Textos: Herman G. Silvani